A cultura da pressa está te roubando produtividade (e você nem percebeu)

Primeiro texto da série Menos pressa, mais progresso

1/21/20264 min read

Vivemos em um tempo em que estar ocupado virou sinônimo de ser produtivo. Agendas cheias, respostas rápidas, múltiplas tarefas acontecendo ao mesmo tempo e a sensação constante de que nunca é suficiente. Mas existe uma pergunta que raramente fazemos, e ela é essencial: essa pressa toda está, de fato, gerando progresso?

Este é o primeiro texto da série Menos pressa, mais progresso, uma série que nasce do desejo de falar sobre produtividade real, aquela que gera resultado sem levar ao burnout, sem adoecer e sem exigir que a vida pessoal seja sempre colocada em segundo plano.

Porque produtividade que cobra um preço alto demais deixa de ser eficiência e passa a ser desgaste.

Quando correr vira regra, pensar vira exceção

A cultura da pressa nos ensina que tudo é urgente. Que responder rápido é mais importante do que responder bem. Que fazer muito é melhor do que fazer o que importa. O problema é que, nesse ritmo acelerado, perdemos clareza, foco e capacidade de decisão.

Estudos recentes sobre performance mostram que a multitarefa constante reduz a qualidade do trabalho, aumenta o estresse e compromete a saúde mental. Ainda assim, seguimos correndo, muitas vezes sem saber exatamente para onde.

O resultado? Pessoas ocupadas, cansadas e com a sensação de que produzem muito, mas avançam pouco.

O problema da pressa

A pressa cria um ciclo perigoso:
🔹 nossa atenção fragmenta;
🔹 nossa energia cai;
🔹 nossa capacidade de pensar estrategicamente desaparece;
🔹 e, ainda assim, continuamos acelerados achando que isso é normal.

Pesquisas e experiências práticas mostram que esse padrão não só diminui a qualidade do que fazemos, como também aumenta o risco de burnout, ansiedade, insônia e perda de foco — problemas que se tornam epidêmicos em culturas de alta exigência. Isso nos leva ao paradoxo: quanto mais tentamos ser produtivos correndo, menos produtivos nos tornamos de verdade.

A produtividade real, aquela que gera impacto sustentável na sua vida pessoal e profissional, não se constrói na velocidade, mas na clareza, na energia e na consistência consciente.

Mas, será que isso tem uma saída?

Eu acredito que sim! Mas, devo confessar que as pessoas me acham muito otimista e, foi com esse pensamento, que reuni algumas pistas do que acredito defendo e ensino nos meus cursos de gestão do tempo e produtividade.

Então, eis o primeiro texto da série Menos pressa, mais progresso! Espero que goste!

Produtividade do bem: produzir sem se violentar

Ali Abdaal, no livro Produtividade do Bem, (livro que li em 2024) propõe uma mudança profunda na forma como entendemos produtividade. Para ele, produtividade sustentável não nasce da pressão ou da disciplina rígida, mas do bem-estar, da motivação e de emoções positivas associadas ao trabalho.

A lógica é simples e poderosa: quando nos sentimos bem, pensamos melhor, criamos melhor e sustentamos o ritmo por mais tempo. Quando produzir vira sofrimento constante, o corpo e a mente cobram a conta, e o burnout aparece como consequência, não como surpresa.

Produtividade, nessa perspectiva, deixa de ser sobre fazer mais e passa a ser sobre fazer com sentido.

Performance sem adoecer: o que a longevidade tem a nos ensinar

Peter Attia, médico e autor de Outlive: A Arte e a Ciência de Viver Mais e Melhor, (livro que li em 2025) traz uma contribuição essencial para essa conversa. Embora o livro trate de longevidade, sua mensagem se aplica diretamente à produtividade: não adianta performar muito hoje se isso compromete sua capacidade de funcionar amanhã.

Attia defende uma abordagem preventiva da saúde, baseada em pilares como sono de qualidade, alimentação com comida de verdade, movimento regular, saúde emocional e clareza de propósito. Quando conectamos isso à vida profissional, a mensagem é clara: alta performance exige energia sustentada, não picos seguidos de exaustão.

Produtividade real é um projeto de longo prazo e assim como a saúde. Mas, o que vemos normalmente é uma produtividade que leva ao adoecimento, porque ela não inclui, nem de longe, nem dos quesitos de saúde indicados pelo Attia.

Gestão do tempo: por que tudo parece urgente?

Aqui entra um conceito clássico (e extremamente atual) da gestão do tempo: a Matriz de Eisenhower.

Dwight D. Eisenhower defendia que “o que é importante raramente é urgente, e o que é urgente raramente é importante”. A partir disso, as tarefas podem ser organizadas em quatro quadrantes:

  • Importante e urgente

  • Importante, mas não urgente

  • Urgente, mas não importante

  • Nem urgente, nem importante

O problema da cultura da pressa é que ela nos aprisiona no quadrante do urgente. Vivemos apagando incêndios, reagindo a demandas externas, resolvendo problemas que explodem justamente porque não foram cuidados antes.

A produtividade real acontece, na maior parte do tempo, no quadrante do importante, mas não urgente:

  • planejamento

  • desenvolvimento pessoal e profissional

  • cuidado com a saúde

  • construção de projetos consistentes

  • organização da rotina

Mas esse quadrante exige algo que a pressa não permite: intencionalidade.

Quando tudo vira urgente, geralmente é sinal de que o importante foi negligenciado por tempo demais.

Para te ajudar a perceber como você tem gerido o seu tempo estou propondo um pequeno exercício construído a partir da Matriz de Eisenhower.

Exercício rápido: você está preso(a) no quadrante da urgência?

Reserve alguns minutos e responda com honestidade:

  1. Liste 8 a 10 tarefas que mais ocuparam sua última semana.
    Quantas delas estavam diretamente ligadas aos seus objetivos reais?

  2. O que você fez porque era urgente e não porque era importante?

  3. O que você sabe que é importante, mas vem adiando constantemente por “falta de tempo”?
    (Ex.: planejar a semana, cuidar da saúde, estudar, organizar a vida financeira, descansar.)

  4. Se sua rotina continuar exatamente assim, como estará sua energia, sua saúde e sua produtividade daqui a seis meses?

Se a maior parte do seu tempo está concentrada apenas em urgências, talvez o problema não seja falta de produtividade, mas sim a falta de clareza, planejamento e escolhas conscientes.

Na próxima quarta-feira, nos encontramos com o segundo texto da série Menos pressa, mais progresso:
“Progresso diário: por que constância vence intensidade” , até lá, uma pergunta para ficar com você: O que você precisa desacelerar hoje para ganhar clareza e resultados amanhã?

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Saiba mais em:

ABDAAL, Ali. Produtividade do bem: como alcançar mais sem sacrificar sua felicidade. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.

ATTIA, Peter; GIFFORD, Bill. Outlive: a arte e a ciência de viver mais e melhor. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2024.

EISENHOWER, Dwight D. Citações e discursos sobre liderança e prioridades. Disponível em: https://www.eisenhowerlibrary.gov. Acesso em: 15 jan. 2026.