O que o livro A Geração Ansiosa nos ensina sobre o poder do brincar

2/25/20263 min read

Quem me acompanha sabe: eu sou uma treinadora mão na massa. Acredito profundamente que o conhecimento só se consolida quando passa pelas mãos, pelo corpo, pela experiência. É por isso que metodologias ativas e recursos concretos, como o LEGO® , são ferramentas tão presentes nos meus treinamentos.

Recentemente, mergulhei na leitura de A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, e vibrei ao perceber que a ciência tem confirmado aquilo que vivencio na prática há anos: o brincar é um elemento vital para o desenvolvimento humano, em qualquer idade.

A grande reconfiguração da infância e seus impactos na vida adulta

Em A Geração Ansiosa, Haidt (2024) apresenta o conceito da “Grande Reconfiguração da Infância”, fenômeno marcado pela substituição das experiências presenciais e corporais pelo uso massivo de telas. Segundo o autor, essa mudança trouxe pelo menos quatro danos profundos:

1. Privação social

A redução das interações presenciais compromete a leitura de expressões faciais, linguagem corporal e nuances emocionais, elementos essenciais para o desenvolvimento da empatia e da inteligência social.

2. Privação de sono

O uso prolongado de dispositivos digitais, especialmente no período noturno, interfere na qualidade do sono, impactando diretamente o humor, a regulação emocional e a capacidade cognitiva.

3. Fragmentação da atenção

O fluxo constante de notificações e estímulos rápidos condiciona o cérebro à interrupção permanente. A consequência é a dificuldade de atingir estados de foco profundo, o chamado “estado de fluxo".

4. Dependência e recompensa imediata

As redes sociais oferecem picos rápidos de dopamina, criando um ciclo de recompensa imediata que pode substituir a satisfação mais duradoura derivada da conquista de metas reais e significativas.

Embora Haidt trate especialmente da infância e adolescência, é impossível ignorar que os adultos também vivem sob essa lógica. E isso impacta diretamente o ambiente corporativo.

Do “Clube do Brincar” ao ambiente corporativo

Entre as propostas de reconstrução apresentadas por Haidt está o incentivo ao chamado “Clube do Brincar”, espaços onde crianças possam interagir livremente, sem mediação constante de telas.

Mas e no mundo adulto?
Como recuperamos essa dimensão essencial do desenvolvimento humano dentro das empresas?

Na minha prática como facilitadora, vejo o uso de materiais disruptivos das metodologias Strategic bricks: Soluções disruptivas, como uma espécie de “Clube do Brincar” para profissionais. E os resultados são consistentes e transformadores.

Recuperação da essência

O brincar resgata curiosidade, coragem e abertura. Quando adultos se permitem experimentar de forma lúdica, baixam defesas, flexibilizam crenças e ampliam repertórios.

Conexão real

Construir algo fisicamente em grupo combate a privação social. O olho no olho retorna. A escuta ativa se fortalece. Laços humanos genuínos se formam.

Foco e presença

Ao colocar as mãos nas peças, silenciamos as telas. O corpo entra na experiência. A atenção se ancora no problema real a ser resolvido. Recuperamos a presença, um ativo raro em tempos de hiperconexão.

Segurança psicológica

O lúdico cria um ambiente seguro para testar hipóteses, errar, ajustar e prototipar ideias. A externalização concreta de pensamentos complexos facilita conversas estratégicas que muitas vezes não emergem em reuniões tradicionais.

O lúdico como metodologia, não como distração

Há ainda um mito persistente de que brincar é sinônimo de superficialidade. A ciência aponta o contrário.

Pesquisas em psicologia do desenvolvimento e neurociência mostram que experiências práticas favorecem aprendizagem significativa, retenção de conteúdo e pensamento criativo (HAIDT, 2024).

Aliás, aqui no blog há uma série sobre as 12 teorias que dão sustentação à metodologia Strategic Bricks: Soluções Disruptivas. Recomendo fortemente a leitura dos textos.

No processo de ensino-aprendizagem, o lúdico não é distração, é estratégia. Quando adultos “brincam” seriamente, desbloqueiam criatividade, ampliam perspectivas e encontram soluções que estavam escondidas atrás de planilhas e apresentações em PowerPoint.

Pausar para brincar com um problema pode ser, paradoxalmente, o caminho mais curto para a produtividade real.

Um convite à reflexão

Vivemos em uma era em que estar conectado virou sinônimo de estar produtivo. Mas a ciência tem nos mostrado que desconectar pode ser um ato estratégico de aprendizagem e desenvolvimento.

E você?
Como tem combatido o excesso de telas na sua rotina de aprendizado ou na sua equipe?

Talvez o próximo passo estratégico não esteja em uma nova ferramenta digital, mas em recuperar algo que aprendemos na infância: a potência transformadora do "brincar".

Saiba mais em:

HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a grande reconfiguração da infância está causando uma epidemia de transtornos mentais. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2024.